Conto de Mistério de Negra Noite – O CRIME DA RUA 100

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Ela estava a banhar-se. Mansamente, despreocupadamente…

Em detalhes eu via os movimentos que ela fazia ao contornar os labirintos de suas orelhas. O vai e vem de seus dedos longos, e suas unhas pintadas à francesinha,
nos caminhos sinuosos de suas orelhas.

Eram vistos também por um jovem rapaz, sentado logo atrás dela.
Ele não me notara a fitá-lo. Estava em transe… Quiças pensamentos o invadiam naquele instante?!?!

Eu continuei a observá-la enquanto retirava a maquilagem dos olhos grandes, curiosos, atentos e que, neste momento, estavam quietos, mansos, dormentes.

Cada movimento era tranquilo. Como se nada a perturbasse ou que nós que ali a observávamos nem existíamos… Ou era um estratagema dela?

Quais seus reais propósitos?!?

A tarde se encobria de raios dourados pálidos. O cair da noite se via aquém dos morros e telhados. As sombras se alongavam em direção às portas das residências.

Logo anoiteceria…

O horário entre o entardecer e o anoitecer é muito criativo a inúmeras relações de mistérios…

Um desses mistérios relato agora…

Aquela cortina nunca fora aberta antes. Quem conhecia a casa da esquina da rua 100 por certo não saberia dizer quem ali morava.

A casa continha mistérios desde seu portão em formato de coração atravessado por três flechas.

O jardim, sempre em perfeito estado, mereceria o postal da cidade.

Ali brotavam madrigais, calêndulas, majestosos roseirais multicores, gardênias, jasmins, querubins, dálias, damas-da-noite, antúrios, coroas de cristo, margaridas
silvestres…a outras tantas raridades belezas em cor e formato. Tudo bem disposto, a convidar para adentrar…

Nunca soubera-se de jardineiro ou quem cuidasse com tal zelo aquele arredor à casa.

As janelas sempre encobertas por cortinas em voal, transpareciam que alguém ali vivia e dali observava o mundo…

Os habitantes do bairro pareciam desconhecer o (s) morador(es) daquele lugar ou pareciam-lhes indiferentes.

As portas – duas delas – eram voltadas para o horizonte. Tinham madeiras envernizadas e notavam-se arabescos entalhados, denotando cuidado e esmero – uma
preciosidade da arte manual de algum marceneiro detalhista, talvez!

Haviam dois pequenos lagos. Cada um tinha um linda estátua grega por onde vertia a água, evitando-se a estagnação. Viam-se em relance, peixes em nados calmos.
Talvez carpas…

Uma frondosa árvore serpenteava uma das vidraças, como a proteger de olhares mais curiosos o interior, semi velado pela cortina leve, esvoaçante as vezes, do
vitro aberto por vida.

Não se viam empregados, crianças, cães, outros animais que não os próprios libertos naturais que ali trafegavam como em cumplicidade muda.

Também não se sabe se haviam crianças, velhos ou empresários. Não se notavam movimentos de veículos da garagem na lateral esquerda.

A casa existia, simplesmente.

E como tal, as pessoas que ali passavam ora paravam e se deleitavam com suas belezuras, ora intrigadas continuavam o caminho, sempre dando uma última
olhadela… O que pensariam estas últimas?

As crianças que íam à escola e sempre passaram à frente nunca cismaram em penetrá-la, como artes e peraltices da infância. Entre elas existia um pacto de terror.
Alguém dissera-lhes que ali fora cometido um bárbaro crime, em meados de um ano qualquer e existiam fantasmas que perseguiriam pela vida toda qualquer alma
viva que penetrasse em seus recintos. E isso era um pacto feito em silêncio!

Eu, mudara-me há poucas semanas. Sempre meu olhar recaia sobre aquela casa. Minha janela tinha toda a vista voltada a ela. Dali, sem precisar me expor demais
poderia notar tudo o que ocorresse aos arredores e dentro dela.
Via o balcão do terraço lateral, por onde as vezes um gato molenga se dependura uma das patas e adormecia ao sol das manhãs.

Também notaria algum movimento e outras particularidades se ocorressem no momento em que eu estava ali, àquela janela, não bisbilhotando a vida alheia, mas sim,
observando uma residência bela, quieta, que me aturdia os pensamentos.

Vasculhara por histórias reais com os jornaleiros, os frequentadores dos bares e padaria ao redor… e deles nada vinham, a não ser que era um perfeito mistério
qualquer coisa em alusão à seus moradores.

Até para as donas de casa que varriam suas calçadas, costumeiramente, havia perguntando.
Sempre me olhavam como “suspeito de algo” … algumas até “fugiam” para dentro de suas casas deixando-me estancado ali, sem nada entender…

Intrigava-me a ausência de qualquer notícia. De qualquer informe…

Nos dias em que folgava já era-me predestinado a pesquisar sobre tudo o que pudesse ter ocorrido. Ìa à bibliotecas, lia os jornais e manchetes bem antigos…
Também me propusera a ir à Prefeitura para saber do ano de construção. Quem sabe se a partir de então alguma lógica eu poderia seguir. Porque tudo até o
presente momento eram lacunas, lacunas e lacunas. Meias histórias e nada mais de concreto …

Nos dias que se seguiram minhas idéias corriam soltas junto à imaginação.

Sonhara ser um Sherlok quando adolescente… mas esse mistério estava além de minhas faculdades normais de aprendiz de feiticeiro (li muitas obras de
obscurantismo, bruxarias, contos fantasmagóricos, crimes hediondos, o Fã Clube- este me deixou extremamente perturbado- como uns caras “normais” reunidos  dias após dias em uma casa com uma mulher pelo qual cortejavam como fãs poderiam cometer aquela barbaridade usando um cabide??).

Restava-me ainda ir a um distrito policial…

E dias pela frente fiquei pensando em quais perguntas iriam fazer aos policiais. Se devia fazê-las mesmo… Vai que eu fosse taxado como “suspeito” de alguma história de violência daquela moradia???
Aí, de simples observador iria passar a um presidiário ou condenado por algo que não cometi!- E isso dava-me medo, receio, sei lá…Sabe-se de tantas histórias que um inocente paga pelo criminoso…

Comprara até um caderno de espiral, com umas duzentas folhas só para anotar quaisquer coisas vindas ou oriundas de minhas indagações, pensamentos, decisões etc a respeito dela (da casa). Na capa colei uma etiqueta com os seguintes dizeres: “A CASA DA RUA 100 – crime ou castigo?”

Por vezes passara a noite em claro (embora com luz apagada) espiando de minha janela aquela residência.

A lua cheia dava-lhe aspecto grotesco às vezes, e, outras tantas, um jeito romântico. E isso, algumas vezes, fazia-me percorrer outro ponto. Poderia ter havido uma história de romance? Desses bem fortes…Talvez um suicídio a dois, como na história de Romeu e Julieta?.. Talvez um só tivesse morrido ou matado o outro, por amor, somente? Talvez esse que sobreviveu estivesse ali, por detrás de suas cortinas e portas me vendo, me observando!!!…

Um arrepio subiu-me a espinha…Ai… isso me deu medo! Ser observado por alguém um tanto desvairado…

Pensando nisso, fechei a janela, deitei-me, cobri-me bem… lembrando dos temores de criança onde um cobertor era a nossa salvação dos medos de escuro e de
fantasmas ou de trovão, quando cobríamos a cabeça, o corpo, os pés… tudinho… suados até… e adormecíamos assim para acordar num novo dia, com vontade de tomar um bom café… sem recordar do episódio noturno…

Confesso que também suei, mas logo adormeci…

Acordei com o rádio a tocar…

Levantei-me e abri a janela, com um certo receio, direi…

E aquela hora da manhã avistei muitos carros de polícia em frente aquela casa. Pessoas entravam e saíam de lá de dentro. Pisavam sua grama úmida pelo orvalho da madrugada…

Senti uma espécie de tristeza… como se aquele jardim era imaculado para mim. Não se deviam entrar e nunca pisotear suas flores, seus gramados… “Estruparem” seu interior…

Fiquei atônito com toda essa informação… Não conseguia me mexer. Paralisado e de boca aberta assistia a tudo… e nada entendia.

Nada escutei durante o curto tempo em que adormeci… e no entanto algo tinha ocorrido ou … estaria ocorrendo!!!

Vesti-me rapidamente. Lavei meu rosto, escovei os cabelos e dentes. Pus meus óculos, sem antes lavá-los tirando o embaçado de longas horas de vistoria pela janela…

Não quis o desjejum… somente um pedaço de queijo branco coberto com goiabada. O doce e o meio salgado, como sempre gostara…

Peguei minha câmera (esqueci de dizer que de minha janela também havia tirado muitas e muitas fotos da casa nesses tempos todos de observação), o molho de chaves que de costume sempre esquecia onde houvera deixado… dessa vez estavam sob a almofada do pequeno sofá da entre-sala! Calcei meus sapatos de couro  marrom e lembrei-me que havia os calçados sem meias…não gosto muito de usar assim. Retirei-os e busquei as meias que usara ontem… ainda estavam limpas… calcei-as e em seguida botei os sapatos.

Abri a porta…

Por um breve momento estanquei junto a ela…

Pensei comigo mesmo e disse-me (em voz audível):

– “Estou pronto para saber???”





—-
————e você, está pronto para saber? ————–

(Negra Noite-01/11/2012 – 00:20/00:45 horas)

Publicado no Recanto das Letras por Milena Medeiros em 01/11/2012 –Reeditado em 01/11/2012-Código do texto: T3962859
Classificação de conteúdo: moderado

1 comentário

Arquivado em eu sou assim, JEITO FEMININO, milena medeiros, orkut, POESIA, saudade e lembranças no orkut

Uma resposta para “Conto de Mistério de Negra Noite – O CRIME DA RUA 100

  1. Lene

    Ma-ra-vi-lho-so. Meus olhos pregaram aqui na telinha e a curiosidade foi aumentando cada vez mais. Adorei. Você deixou no ar uma grande revelação que dependerá da imaginação de cada um. Estarei pronta para saber? Bjs, amiga.

Agradeço ter visitado o blog e comentado. Logo responderei. (Milena)

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